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 Lições de uma Tragedia
A sucessão de tempestades que assolaram o país entre 22 de Janeiro e 7 de Fevereiro de 2026 é conhecida, assim como as suas consequências em vidas humanas e prejuízos materiais. Com algum distanciamento importa apurar as razões porque em muitos concelhos os deslizamentos de terras, inundações, quedas de árvores e destruição de infra-estruturas foram impressionantes, e noutros, em que as condições foram igualmente terriveis, as consequências foram mínimas.
O director do Jornal da Praceta, como escrevemos noutro lugar, estava durante este período nos Paises Baixos, um país durante séculos habituado a lidar com tempestades e mortiferas inundações. Perante as imagens que apareciam nos ecrans de televisão, os nossos interlocutores locais perguntavam-nos se em Portugal não existiam bacias de retenção de águas pluviais, as margens dos rios e ribeiras não eram limpos, os diques não eram fiscalizados, as árvores em espaços urbanos não eram vigiadas, as redes eléctricas não tinham em conta tempestades semelhantes, a construção das estradas não previam valas para o escoamento de águas, etc. Entre eles, interrogavam-se se em Portugal havia planeamento urbano nos municipios, baseado em estudos e executado sob a orientação de técnicos habilitados ou tudo estava confiado ao arbítrio de "pessoal político". Com a sua habitual ironia, não esperavam pela nossa resposta e logo nos inquiriam sobre se foram anulados espectáculos e outros eventos similares locais financiados pelos municípios ou a "festa" continuara. Fica o registo desta elucidativa troca de opiniões com os nossos amigos holandes, mas também algumas fotografias de danos no Jardim do Campo Grande, onde cairam árvores de grande porte. De outras árvores derrubadas na freguesia não publicamos imagens, pois estariamos a dar razão aos holandeses: o Jornal da Praceta há muito que alertava para o seu eventual colapso de algumas, sem que as mesmas fossem removidas e substituidas por outras novas. Tamanha incompetência provoca-nos azia. Fotos: 5/03/2026




Recomeço
A vitória da Coligação Por Tir, Lisboa em Alvalade não foi nenhuma surpresa. O Jornal da Praceta desde o inicio da campanha eleitoral afirmou que este seria a mais provável resultado, para o qual concorreram quatro elementos essenciais:
O primeiro elemento foi a desistência de concorrer nestas eleições do movimento de extrema-direita, liderado Nuno Lopes (Mudar Alvalade). O executivo da Junta de Freguesia de Alvalade e da CML (PSD/CDS-PP), não apenas resolveu-lhe as dividas que tinha para com a Junta e a Câmara, mas deu-lhe largas centenas de milhares de euros. Os votos dos seus apoiantes, naturalmente eram sensiveis a estes apoios. e eventualmente às suas intervenções populistas, reveladoras de uma enorme ignorância sobre a freguesia e os seus problemas concretos. Não deixa de ser significativo que o programa eleitoral de Por Ti, Lisboa (2025-2029), contemple mais apoios ao clube que preside.
O segundo elemento, com peso na votação de Por Ti, Lisboa em Alvalade foii o facto da candidatura do CHEGA ser recusada por conter multiplas irregularidades. O CHEGA, recorde-se foi outro dos partidos que apoiou durante quatro anos o PSD/CDS-PP na Junta de Freguesia de Alvalade. A partir daqui era expectável que uma parte dos seus eleitores, não podendo votar neste partido, o fizessem na coligação de direita em Alvalade, liderada por Tomás Gonçalves (PSD).
A Iniciativa Liberal, foi outros dos partidos que apoiou o executivo do PSD/CDS-PP. A IL ao integrar a coligação Por Ti, Lisboa, contribuia igualmente com os votos dos seus apoiantes para engrossar os da coligação.
Somando todos os votos destes partidos, com base nos resultados das legislativas de 18/05/2025, contabilizava-se 12.788 votos potenciais na Direita. Os partidos que compunham a coligação Viver Lisboa, nestas legislativa atingiram apenas 7.787 votos em Alvalade. Neste quadro, com eleições muito próximas entre si, seria muito dificil superar a desvantagem no número de votos. Se comparamos com as eleições autarquicas de 2021, na votação para a Assembleia de Freguesia, a diferença também era significativa, contando com os votos dos partidos de extrema-direita: 8.102 para 6.366. O resultado das eleições de 12 de Outubro pouco se afastaram desta proporção: 8.727 para 6.019 votos de Viver Lisboa, que registou uma ligeira quebra. À esquerda, o PCP, com os seus 1.787 votos, registou uma ligeira subida em relação a 2021, quando obteve 1.427 votos.
Um último elemento deve ser tido em conta: o discurso de ódio, racista e xenófobo que se instalalou na sociedade portuguesa. A "esquerda" é acusada de manter a parasitagem dos ciganos, incapaz de combater a criminalidade, e sobretudo de ter aberto as portas do país a uma imigração descontrolada, etc. Argumentos continuamente repetidos. A peste, como a história demonstra, uma vez difundida é muito dificil de irradicar, alimenta-se da ignorância.
Para estes eleitores era indiferente a gestão incompetente da Junta sob a lideração do PSD/CDS-PP e o desvario de recursos públicos. O próprio programa eleitoral para Alvalade foi também esquecido. A revista TimeOut, destacava que Tomás Gonçalves prometia no próximo mandato (2025-2025) mais eventos culturais e gastronómicos nos mercados... Acrescentamos: mais do mesmo .
Ignorância Militante
O CHEGA não pode concorrer, por irregularidades na sua candidatura à Assembleia de Freguesia de Alvalade. Os boletins de voto, sendo impressos muito antes da eleições, ainda registavam a candidatura deste partido. Não foi possivel substitui-los. Não faltou todavia informação sobre este facto. Em todas as mesas de voto os eleitores eram avisados. Apesar disto houve um elevado número de votos nulos - 1.493 (8,07%) -, cerca de 1200 eram votos no CHEGA. Como já escrevemos, se tivesse concorrido, este partido teria eleito um vogal. Por Ti, Lisboa ficaria com 9 vogais e tudo o mais se manteria igual.
O caso merece uma reflexão sobre este tipo de eleitores que apoiam o CHEGA. É sabido que este partido não tinha um programa eleitoral, nem nunca o teve em Alvalade. O seu representante, como durante quatro anos escrevemos (2021-2025), para além da questão dos guardas-nocturnos e videovigilância não manifestava ideias sobre nada.
Os eleitores do CHEGA não precisam de ideias, não pretendem melhorar nada no quotidiano dos fregueses, o seu objectivo é um combate contra pessoas, o subsidiodependentes, os imigrantes. Não foi ao acaso que para logo da sua campanha para Lisboa tenham escolhido um castelo e o lema "Defender Lisboa". Evoca-se uma guerra contra os que ameaçam a cidade.
Os votos inúteis que depositaram nas urnas, no dia 12 de Outubro, em Alvalade, revelam outro facto significativo: os eleitores do CHEGA desprezam a própria informação que lhes é prestada, preferem a ignorância na hora de votarem. |