Jornal da Praceta

FUNDADO EM JUNHO DE 2001

Informação sobre a freguesia de Alvalade

( Campo Grande, São João de Brito e Alvalade)


EDITORIAL

 

25 Anos é muito Tempo

No passado mês de Junho, um grupo de amigos do Jornal da Praceta comemorou condignamente os 25 anos de existência desta publicação. Um dos nossos colaboradores (M.P.), sempre atento ao que nele se escreve, retirou do casaco um papel, já amarrotado, para destacar quatro evidências que, segundo ele, o jornal tinha evidenciado ao longo da sua existência. Nem todos os presentes concordaram com as supostas "evidências", mas tiveram a vantagem na ocasião de terem gerado uma animada discussão. O Jornal da Praceta, nestes primeiros 25 anos, terá colocado em evidência, a partir de análise centrada a nível local, quatro graves problemas que afectam o desenvolvimento país, com reflexos vísiveis no quotidiano das populações.

1. Organização Local e Regional. A admnistração autárquica em Portugal, pela forma como foi concebida em 1976 e foi depois evoluindo, criou uma sistema propício à corrupção e desperdício de recursos públicos, no qual bandos de oportunistas e ladrões facilmente tiram dele partido. Está dispersa por uma multiplicidade de orgãos e uma multidão de autarcas, cujas funções desempenhadas são sempre muito criativas. A mais elementar medida de racionalidade e imperativo democrático exigiria, por exemplo, que os executivos emanassem de assembleias directamente eleitas, ou fosse extintas todas as juntas de Freguesia substituídas por assembleias locais, formadas quando necessário. O problema é que o actual ordenamento constitucional e legislativo blindou alterações desta monta, mantendo os desvario de recursos. Como o Jornal da Praceta tem revelado, Portugal com os seus 11 milhões de habitantes, por exemplo, tem 6 a 7 vezes mais autarcas que os Países baixos, com 18 milhões de habitantes. Não se ganhou nem eficiência, muito menos em democracia, muito pelo   contrário.  Mesmo os autarcas bem intencionados, acabam por colaborar na manutenção do sistema. A inexistência de um orgão regional de coordenação e planeamento acentua ainda mais o problema da dispersão, agrava os conflitos entre os municipios e o desvario das decisões avulso.

2. Gestão Autárquica. O presidencialismo que foi sendo instaurado nas autarquias, depois de 1977, esvaziou de sentido as assembleias das câmaras e juntas de freguesia, favorecendo  as decisões arbitrárias dos executivos. Medidas que podiam melhorar a qualidade de vida das populações, são sistematicamente secundarizadas, face à acções eleitoralistas, resultantes de pressões partidárias ou até alimentam o ego de autarcas. O resultado é o caos na gestão autárquica , de que todos se lamentam, cuja consequência imediata é prolongar os mesmos problemas durante décadas, levando à descrença generalizada sobre a própria gestão autarquica.

3. Cidadania. A gestão autarquica erratica, marcada por investimentos de duvidosa utilidade, seria facilmnte corrigida se a cidadania em Portugal não fosse o que é: incipiente. A história do país, todos sabemos, foi marcada pelo centralismo e uma cultura avessa a democracia, gerando em grande parte da população uma difusa ideia dos direitos e deveres como cidadãos. Depois de Abril de 1974, os partidos políticos, limitarem a participção política dos cidadãos, monopolizando as eleições e os orgão de decisão políticos. Criou-se a ideia que o exercicio da cidadania só é possivel desde que o cidadão esteja integrado em aparelhos partidários. O cidadão em Portugal tornou-se numa ficção, reduzido à condição de votante em eleições para lugares que foi excluido individualmente concorrer. O resultado é o alheamento da vida do país e do local onde vivem, assumindo-se como espectadores de um filme cujo enredo ignoram.

4. Civismo. A um nível hiperlocal, onde se insere este jornal, é chocante a forma como os moradores desprezam os espaços públicos, vandalizam na maior impunidades equipamentos colectivos, revelando-se desligados de quaisquer laços de pertença à comunidade onde vivem. É neste aspecto que se revela melhor, as profundas implicações da organização autarquica e a sua gestão. O municipe ou freguês, não se sentem ligados ao espaço onde vivem, dado alimentarem a convicção que os políticos em quem votarem também não estão. A tese do nosso amigo M.P. é que o sistema autarquico em Portugal, limitou-se a dar continuidade ao centralismo, caciquismo e à ausência de uma efeciva cidadania, acabando por contribuir para os atrasos estruturais que a maioria da população se lamenta.

Fica o registo das evidências e o agradecimento pessoal pelo animando convivio .

Lições de uma Tragedia

A sucessão de tempestades que assolaram o país entre 22 de Janeiro  e 7 de Fevereiro de 2026 é conhecida, assim como as suas consequências em vidas humanas e prejuízos materiais. Com algum distanciamento importa apurar as razões porque em muitos concelhos os deslizamentos de terras, inundações, quedas de árvores e destruição de infra-estruturas foram impressionantes, e noutros, em que as condições foram igualmente terriveis,   as consequências foram mínimas. 

O director do Jornal da Praceta, como escrevemos noutro lugar, estava durante este período nos Paises Baixos, um país durante séculos habituado a lidar com tempestades e mortiferas inundações. Perante as imagens que apareciam nos ecrans de televisão, os nossos interlocutores locais perguntavam-nos se em Portugal não existiam bacias de retenção de águas pluviais, as margens dos rios e ribeiras não eram limpos, os diques não eram fiscalizados, as árvores em espaços urbanos não eram vigiadas, as redes eléctricas não tinham em conta tempestades semelhantes, a construção das estradas não previam valas para o escoamento de águas, etc. Entre eles, interrogavam-se se em Portugal havia planeamento urbano nos municipios, baseado em estudos e executado sob a orientação de  técnicos habilitados ou tudo estava confiado ao arbítrio de "pessoal político".  Com a sua habitual ironia, não esperavam pela nossa resposta e logo nos inquiriam sobre se foram anulados espectáculos e outros eventos similares locais financiados  pelos municípios ou a "festa" continuara. Fica o registo desta elucidativa troca de opiniões com os nossos amigos holandes, mas também  algumas fotografias de danos no Jardim do Campo Grande, onde cairam árvores de grande porte. De outras árvores derrubadas na freguesia não publicamos imagens, pois estariamos a dar razão aos holandeses: o Jornal da Praceta há muito que alertava para o seu eventual colapso de algumas, sem que as mesmas fossem removidas e substituidas por outras novas. Tamanha incompetência provoca-nos azia. Fotos: 5/03/2026 

Recomeço 

A vitória da Coligação Por Tir, Lisboa em Alvalade não foi nenhuma surpresa. O Jornal da Praceta desde o inicio da campanha eleitoral afirmou que este seria a mais provável resultado, para o qual concorreram quatro elementos essenciais:

O primeiro elemento foi a desistência de concorrer nestas eleições do movimento de extrema-direita, liderado Nuno Lopes (Mudar Alvalade). O executivo da Junta de Freguesia de Alvalade e da CML (PSD/CDS-PP), não apenas resolveu-lhe  as dividas que tinha para com a Junta e a Câmara, mas deu-lhe  largas centenas de milhares de euros. Os votos dos seus apoiantes, naturalmente eram sensiveis a estes apoios. e eventualmente  às suas intervenções populistas, reveladoras de uma enorme ignorância sobre a freguesia e os seus problemas concretos. Não deixa de ser significativo que o programa eleitoral de Por Ti, Lisboa (2025-2029), contemple mais apoios ao clube que preside.     

O segundo elemento, com peso na votação de Por Ti, Lisboa em Alvalade  foii o facto da candidatura do CHEGA ser recusada por conter multiplas irregularidades. O CHEGA, recorde-se foi outro dos partidos que apoiou durante quatro anos o PSD/CDS-PP na Junta de Freguesia de Alvalade. A partir  daqui era expectável que uma  parte dos seus eleitores, não podendo votar neste partido, o fizessem na coligação de direita em Alvalade, liderada por Tomás Gonçalves (PSD).

A Iniciativa Liberal, foi outros dos partidos que apoiou o executivo do PSD/CDS-PP. A IL ao integrar a coligação Por Ti, Lisboa, contribuia igualmente com os votos dos seus apoiantes para engrossar os da coligação.

Somando todos os votos destes partidos, com base nos resultados  das legislativas de 18/05/2025, contabilizava-se 12.788 votos potenciais na Direita. Os partidos que compunham a coligação Viver Lisboa, nestas legislativa atingiram apenas 7.787 votos em Alvalade. Neste quadro, com eleições muito próximas entre si, seria muito dificil superar a desvantagem no número de votos. Se comparamos com as eleições autarquicas de 2021, na votação para a Assembleia de Freguesia, a diferença também era significativa, contando com os votos dos partidos de extrema-direita: 8.102  para 6.366.  O resultado das eleições de 12 de Outubro pouco se afastaram desta proporção: 8.727  para 6.019 votos de Viver Lisboa, que registou uma ligeira quebra. À esquerda, o  PCP, com os seus 1.787 votos, registou uma ligeira subida em relação a 2021, quando obteve 1.427 votos.

Um último elemento deve ser tido em conta: o discurso de ódio, racista e xenófobo que se instalalou na sociedade portuguesa. A "esquerda" é acusada de manter a parasitagem dos ciganos, incapaz de combater a criminalidade, e sobretudo de ter aberto as portas do país a uma imigração descontrolada, etc. Argumentos continuamente repetidos. A peste, como a história demonstra, uma vez difundida é muito dificil de irradicar, alimenta-se da ignorância.     

Para estes eleitores era indiferente a gestão incompetente da Junta sob a lideração do PSD/CDS-PP e o desvario de recursos públicos. O próprio programa eleitoral para Alvalade foi também esquecido. A revista TimeOut, destacava que Tomás Gonçalves prometia no próximo mandato (2025-2025) mais eventos culturais e gastronómicos nos mercados... Acrescentamos: mais do mesmo  .  

Ignorância Militante

O CHEGA não pode concorrer, por irregularidades na sua candidatura à Assembleia de Freguesia de Alvalade. Os boletins de voto, sendo impressos muito antes da eleições, ainda registavam a candidatura  deste partido. Não foi possivel substitui-los. Não faltou todavia informação sobre este facto. Em todas as mesas de voto os eleitores eram avisados. Apesar disto houve um elevado número de votos nulos - 1.493 (8,07%) -, cerca de 1200 eram votos no CHEGA. Como já escrevemos, se tivesse concorrido, este partido teria eleito um vogal. Por Ti, Lisboa ficaria com 9 vogais e tudo o mais se manteria igual. 

O caso merece uma reflexão sobre este tipo de eleitores que apoiam o CHEGA. É sabido que este partido não tinha um programa eleitoral, nem nunca o teve em Alvalade. O seu representante, como durante quatro anos escrevemos (2021-2025), para além da questão dos guardas-nocturnos e videovigilância não manifestava ideias sobre nada.  

Os  eleitores do CHEGA não precisam de ideias, não pretendem melhorar nada no quotidiano dos fregueses, o seu objectivo é um combate contra pessoas, o subsidiodependentes, os imigrantes. Não foi ao acaso que para logo  da sua campanha para Lisboa tenham escolhido um castelo e o lema "Defender Lisboa". Evoca-se uma guerra contra os que ameaçam a cidade.

Os votos inúteis que depositaram nas urnas, no dia 12 de Outubro,  em Alvalade, revelam outro facto significativo: os eleitores do CHEGA desprezam a própria informação que lhes é prestada, preferem a ignorância na hora de votarem.

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Director: Carlos Fontes

( CCPJ - nº. de título: TE671 )

(carlos.fontes@jornaldapraceta.pt)

Colaboradores: Manuel Pereira, Gaspar Santos, Penas, Mariana Fontes, Adelaide Miranda, Jorge Fonseca.

Periocidade: Quinzenal

Registo na Entidade Reguladora para a Comunicação Social: 126980

Sede da Redação: Rua José Lins do Rego, 3, 1º. Frente, 1700-262 Lisboa.

Contacto: jornalpraceta@sapo.pt

2006

Nas páginas de alguns jornais, com destaque para o Público são cada vez mais frequentes os desenvolvimentos de notícias publicadas no Jornal da Praceta. Facto que atesta a nossa crescente projecção local e regional, reforçando o nosso papel como mediadores entre os moradores e a imprensa diária. Entrevista

2005

 Comunicação Social

Jornal da Praceta foi considerado um caso exemplar de intervenção cívica na cidade de Lisboa (Reportagem ) .

2004

Universidade Nova de Lisboa. FCSH.  Instituto de História da Arte

VIII Curso Livre de História da Arte  

Lisboa Espaço e História

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Lisboa Virtual. Conferência de Carlos Fontes, director do Jornal da Praceta - 2 de Junho de 2004 (Comunicação )

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Escola Secundária Rainha Dona Leonor

Dia 11 Março 2004 - 14.30

Jornais Electrónicos de Bairro, conferência proferida por Carlos Fontes (director do Jornal da Praceta

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2003

O jornal  Público distingue o Jornal da Praceta na  imprensa electrónica, afirmando que se trata de um jornal  "bem informado" não apenas do que se passa no bairro, mas também na cidade e nos meandros da própria CML. Com meses de antecedência publica factos que depois serão manchete em semanários, como O Independente. (Cf.Público,31/8/2003)

 
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