Jornal da Praceta


Informação sobre a freguesia de Alvalade

(Alvalade, Campo Grande e São João de Brito)  

 

Breve História da Freguesia de Alvalade

 

Em construção....

 

Paroquia do Campo Grande dos Santos Reis Magos

 

 

Paróquia dos Santos Reis

A Igreja dos Santos Reis Magos no Campo Grande, em Lisboa, começou por ser apenas uma simples ermida na dependência da Paróquia de Santa Justa. A ermida tinha uma posição privilegiada nos arredores de Lisboa: Estava num fértil planalto, repleto de quintas e hortas que abasteciam Lisboa. Foi erguida junto a um antiquissima estrada que ligava a cidade a outras importantes povoações como Torres Vedras ou Santarém. De Santa Justa passou para a dependência da Paróquia de São João Baptista do Lumiar, uma proximidade que facilitou a vida dos seus moradores (baptismos, casamentos, funerais, etc).

No século XVI, o aumento dos moradores no Campo Grande levou-os a solicitaram a constituição de uma nova paróquia independente da do Lumiar, uma separação que lhe diminuia os rendimentos.  Entre os moradores que defenderam a criação desta paróquia conhecemos os nomes de Dinis Lobo da Gama, Fernão de Melo, Pedro Taveira Soares, Luis Freire de Andrade e Silvestre do Amaral (2).

A Ermida tornou-se numa Igreja sob o orago dos Santos Reis Magos que se inseria, como escrevemos, num registo evocativo dos descobrimentos. Desconhecemos a existência de cerimónias ou festividades próprias desta Igreja dedicadas aos Reis Magos. Outros cultos parecem ter secundarizado a dimensão simbólica dos reis magos, a que não será alheio o seu enquadramento rural.

Ainda no século XVI temos a referência à constituição do compromisso da Irmandade do Senhor (1572) e à reunião na Igreja dos representantes da cidade de Lisboa e da Casa dos Vinte e Quatro para escolherem os delegados às Cortes de Setubal (1580).

Século XVII 

No século XVII regista-se a construção de um cruzeiro (1646) e trabalhos no rábulo-mor por José Ramalho, concluídos em 1698 por Manuel Francisco (4).  A paróquia abrangia então o lugar de Palma de Cima, tinha 1650 habitantes e cinco confrarias, entre elas Nª. Srª. do Campo.

 Século XVIII

No século XVIII a informação começa a ser mais abundante. Em 1701 trabalhavam no retábulo da Igreja os pintores Francisco de Sousa, Manuel Soares e José de Campo a cargo da Irmandade do Santíssimo Sacramento (4) e 1720 fundou-se a Irmandade das Almas. Havia também a irmandade do Rosário.

Durante o reinado de D. João V, assiste-se na Paróquia a grandes investimentos da nobreza, fidalguia e oficialato de corte na construção de magnificas quintas com capelas privativas . 

Após o terramoto de 1755 era feita a seguite relação das   ermidas na Paróquia: E. S. João Baptista ; E. Nª. Srª. da Piedade (particular,  Quinta de Diogo Souza Mexia); E. Santo António (particular, quinta António José Bouchard);  E. Nª. Srª dos Milagres, em entrecampos (particular, quinta Rosa Caetana Viterbo, viúva de José da Silva);  E. de Santo António em Palma de Cima ( particular, quinta do desembargador José Simões Barbosa); Santa Ana na Quinta do doutor Leal; E. de Nª. Srª. da Nazaré (particular, Quinta de Fernando de Almeida); E. de Nª. Srª. do Carmo (particular,  Quinta de Gregório da Silva Azeredo); E. de Nª. Srª. da Conceição (particular, Quinta de Custódio Ferreira Goes); E. dos Santos Reis (particular, Quinta do Ferro junto ao Campo Pequeno), E. de Santa Ana, no sítio do Pote de Agoa e Calvanas (particular, Quinta do Dr. Joaquim Pereira da Silva Leal , demolida devido ao terramoto); E. de Nª. Srª. das Mercês (particular, Quinta do Beneficiado Sebastião alvares Vidigal); E. São Caetano (particular, Quinta dos Padres da Providência Divina, demolido pelo terramoto). Não faltavam ermidas e capelas, para além de quintas na Paróquia . 

Com Lisboa desvastada pelo terramoto milhares de pessoas encontram refugio no Campo Grande, em condições também muito precárias. A Igreja foi muito afectada. Nas Memórias Paroquiais datadas de 1758 escritas pelo pároco José Antunes Moreira (3) sabemos que junta à mesma se situava a Quinta de Miguel da Costa Moreira e do desembargador do Paço José Cardoso Castelo.

No altar-mor estavam representados o Reis Magos; no lado da Epístola, a Natividade e num nicho a imagem de São João Baptista. No lado oposto, o painel da Circuncisão e num nicho a imagem de Nossa Senhora da Guia. Estas pinturas são anteriores ao terramoto, a sua autoria é atribuida a Pedro Alexandrino (1729-1810).

A Igreja tinha outros quatro altares. Do lado da Epístola colaterais: o altar de Santo António, com as imagens de Santa Luzia e Santa Catarina; No lado oposto, o altar do Menino Jesus, tendo o Crucificado e São Miguel.

No corpo da Igreja, no lado da Epístola, a capela de Nossa Senhora da Conceição, com as imagens de Santa Ana, São José, Nossa Senhora e o menino. No lado oposto, a capela de Nossa Senhora do Rosário, com as imagens de São Sebastião e São Gonçalo (1)

Neste ano de 1758, segundo o pároco, a freguesia contava comn 225 vizinhos (3). 

Em 1778 (1) a Irmandade do Santissimo Sacramento solicita à rainha D. Maria I a concessão de uma feira franca para obter receitas para custear as obras na Igreja (5).

Datados de 1798 existem na sacristia 2 painéis de azulejos representando um Nossa Senhora da Conceição, Santo António e São Marçal e o outro Cristo crucificado e São Caetano. (4)

Século XIX 

No século XIX foram realizadas importantes obras no interior, sendo colocado sobre o arco o escudo real de D. Luís, com as armas de Portugal. Recebeu móveis e sinetas provenientes do extinto Mosteiro da Esperança (1889), tendo sido realizada obras de reparação em 1896. A Igreja tornou-se local de elegantes cerimónias de casamento.

Interior da Igreja. Foto:18/10/2021

O jardim do Campo Grande ao transformar-se num "Passeio Público" tornou-se num dos sítios de lazer mais concorridos de Lisboa. O local foi reforçando a sua vocação de espaço de lazer e de desporto de Lisboa. A Feira do Campo Grande, a passagem de gado para o matadouro ou as praças de toiros obrigaram à protecção do adro da Igreja.

Ao longo do ano eram várias as festas religiosas, como com as suas habituais quermesses para socorrer os mais necessitados. 

Século XX 

O Campo Grande no princípio do século, apesar de algumas fábricas e oficinas, continua a ser marcado pela ruralidade, com vastas quintas e hortas.

O Vestuário de Santa Isabel, Rainha de Portugal, criado em 1933 foi um das mais conhecidas obras da paróquia. Tinha como finalidade apoiar as mães de famílias pobres, fornecendo enxovais para recém nascidos, roupas de casa e excepcionalmente esmolas em géneros e em dinheiro. Sinal dos tempos: nos seus Estatutos estabelecia-se que as "sócias benfeitoras" se fossem casadas tinham que ser autorizadas pelos respectivos maridos e se fossem solteiras pelos pais ou tutores.

Fachada da Igreja. Foto: 1946. AMF 

A grande mudança ocorre a partir dos anos quarenta com as expropriações de terrenos para a construção do "Bairro de Alvalade" e da "Cidade Universitária". A paróquia do Campo Grande é desagregada para dar origem à Paróquia de São João de Brito. A presença da várias universidades, clubes e residências universitárias no Campo Grande confere à Paróquia uma dimensão "universitária". A existência de enormes bolsas de pobreza e bairros de barracas, que persistiram até ao século XXI, conferem-lhe também uma importante função assistêncial. Em 1995 é criado, por exemplo, o Centro Social Paroquial do Campo Grande.

Os registos fotográficos do século XX permitem-nos acompanhar com mais detalhe as modificações na igreja. A principal mudança ocorreu em 1996 quando foram realizadas obras de restauro e construção do salão paroquial com comunicação com a nave central da Igreja. O adro da Igreja foi perdendo grande parte da sua dignidade, transformando-se frequentemente num improvisado parque de estacionamento.

O "anexo" construido em 1996 com ligação directa à nave central. Foto: 18/10/2021

Século XXI 

A vocação universitária da paróquia trouxe para a mesma sacerdotes com uma projecção mediática, como o Padre Vitor Feytor Pinto.

 

Padre Feytor Pinto

Padre Vitor Feytor Pinto (1932-2021) foi durante anos uma figura marcante na Paróquia do Campo Grande, da qual foi administrador entre 1997 e 2017. As suas homílias traziam à Igreja verdadeiras enchentes de crentes. Esteve ligado à divulgação do Concílio Vaticano II no movimento "Por um Mundo Melhor" e ao trabalho  da Acção Católica e à vivência da liberdade após o derrube da ditadura. Entre as suas multiplas funções e ações destacamos a de Alto Comissário Contra a Droga (1992) e a participação no realojamento dos moradores do "Bairro das Murtas" (2001). 

A Igreja dos Santos Reis Magos no Campo  Grande revelou-se muito pequena,  tantos eram os que pretendiam despedir-se do Padre Vítor Feytor Pinto. Foto:07/10/2021

 

Carlos Fontes

Notas:

(2) Corografia Portuguesa e descripçam topografica do famoso reyno de Portuga, ..., tomo III. 2ª. Edição. Braga. 1869. Página. 446 (1ª. ediçao, 1712)

(3)Fernando, Lisboa em 1758. Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1974;

(4)FERREIRA, Sílvia Maria Cabrita Nogueira Amaral da Silva, A Talha Barroca de Lisboa (1670-1720). Os Artistas e as Obras, Lisboa, Dissertação de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa, 2009, 3 vols.; consultar: vol. II, p. 539;

   
 
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