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Rafael Bordalo Pinheiro e os Holandeses

Era para ser mais uma Carta da Holanda, pondo em contraste a situação escandalosa  como os  partidos políticos em Portugal usam como bem entendem o espaço público, ao contrário do que acontece pela Europa, em especial em países, como a Holanda  onde  é cuidado e respeitado como um bem comum. Um leitor entretanto fez-nos uma pergunta que não  podemos recusar sobre   a influência holandesa na obra de Rafael Bordalo Pinheiro.

Rafael fazia parte de um familia de artistas. O pai, Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880), não sendo um pintor excepcional, produziu a sua melhor obras nos nove filhos que gerou, entre os quais destacaram-se para além de Rafael (1846-1905), o multifacetado artista, Maria Augusta (1840-1915), pintora e rendilheira, Feliciano (1947-1905), fundador da Real Fábrica de Louças das Caldas da Rainha, Columbano (1857- 1929) e Tomás (1861-1921), desenhador industrial.

Há nesta história uma personagem raramente é mencionada: Augusta Maria do Ó de Carvalho Prostes (1825-1876), a mâe desta prole. O apelido é a forma aportuguesada de Poost. Não é precisas grandes pesquisas para saber que estavamos perante uma descendente directa do vice-consul da Holanda em Setúbal, Boaventura Poost, responsável em meados do século XVII pela exportação de sal para este país. Foi o pretexto para mais uma visita ao Museu que lhe é dedicado no Campo Grande. Ao subirmos as escadas que dão acesso para ao primeiro andar, destaca-se o retrato de Rafael (1891) feito pelo irmão Columbano, e que esteve exposto no Salon do Palácio da Industria, em Paris. 

A pintura para muitos criticos de arte ilustra aquilo que consideram ser a influência da pintora holandesa do século XVII, como a de Rembrandt, na obra de Columbano. O pai obrigou-o a estudá-la na sua formação artistica. 

No topo das escadas deparamos-nos com outro dos elementos essenciais para a questão levanta pelo nosso leitor: um "Mapa Burlesco" da Europa para 1870, desenhado por Rafael, nas vesperas da guerra franco-prussiana. Como representou a Holanda ? O país é representado como um homem de braços abertos, uma forma ajustada à configuração do mar interior (Zuiderzee). O sinal mais significativo está todavia na figura que surge ao lado, a   Prussia (Alemanha) que está prestes come-lo. Este era o grande receio da Holanda, confirmado quando foi invadida pela Alemanha em maio de 1940. Nos versos que legendam o mapa, a referência é dada à Belgica, Dinamarca  e outros pequenos países que receiam que a Prussia alargue os seus arredores. 

Numa síntese sobre o século XIX, Rafael aborda a guerra entre os britânicos e os boers na Africa do Sul, colocando-se ao lado destes últimos. Não o faz por uma aproximação à Holanda, mas por aversão à expansão do domínio britânico em África. Rafael, em 1900, não  gnorava certamente a ligação dos boers à Holanda. 

Dir-se-á que a sua ascendência holandesa não se faz notar na obra gráfica e cerâmica que produziu. Não é de descartar a hipótese de ser uma influência transmitida por via genética, sabendo nós o gosto que os holandeses tem pela natureza e a agricultura em particular. São um dos maiores produtores mundiais de alimentos. A sustentar esta hipótese está o gosto que Rafael demonstra pela representação das hortaliças, tomates e outros legumes.

Carlos Fontes