|
Centro Interpretativo da Calçada Portuguesa em Alvalade
 António Prôa, antigo autarca de Alvalade, presidente da Associação da Calçada Portuguesa. Figura central no reconhecimento da calçada e dos calceteiros, como um saber fazer e uma arte indentitária de Portugal
Dia 22 de Julho, Dia Nacional do Calceteiro, na chamada sala ogival, no Castelo de S. Jorge, foram publicamente assumidos vários compromissos do Estado, incluindo a CML, na promoção da calçada portuguesa, como a criação de um centro interpretativo e museu a ser construido na Rua João Saraiva 40, em Alvalade. Aqui se encontram guardados desde 1950, cerca de 5.000 moldes de calçada portuguesa, correspondendo a mais de 3.000 modelos distintos. O inventário não está fechado.

O local escolhido para esta comemoração, a primeira que foi realizada após a aprovação do dia na Assembleia da República, não podia ser mais oportuno, foi aqui que tudo começou em 1841, quando o governador de armas do quartel instalado no Castelo, mandou executar o calcetamento, em ziguezague, na parada militar. António Miranda, o "professor", como os mestres calceteiros o tratam, na sua síntese histórica, referiu que o tenente-general Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado (1777-1861), recorreu a presos, devidamente remunerados, para executar o enorme tapete, com pedras brancas e pretas. O êxito foi imediato. Estava encontrada uma nova expressão artística.
 A calçada saiu para fora da praça de armas, entrou pela Rua de Santa Cruz do Castelo, a pedido da CML, estendeu-se pela Calçada do Marquês de Tancos.Na foto anterior, podem ver-se alguns vestigios do pavimento original na Rua de Santa Cruz.

Os moradores do Castelo foram os primeiros a saudarem a iniciativa, homenageando o governador, com uma inscrição colocada na rampa que dá acesso ao castelo. Com a renovação do Rossio (Largo D. Pedro IV), propôs que os calceteiros do Limoeiro, repetissem o desenho das ondas, o que foi concluido em 1849. No ano seguinte, no Porto, surgia um enorme tapete com o motivo do Mar ao Largo, como as ondas passaram a ser conhecidas. As praças, avenidas e ruas emblemáticas de Lisboa vão sendo pavimentadas com belos tapetes decorativos: Largo do Carmo (1863), largo de Camões (1867), Jardim da Patriarcal (1870), praça do Município (1876), largo de S. Julião (1876), praça do Duque da Terceira (1877), largo do Chiado (1886), rua Garrett (1888), laterais da avenida da Liberdade (1889), rua António Maria Cardoso (1893), Jardim de S. Pedro de Alcântara (1894), e muuitas outras se seguirão. A calçada tornara-se numa verdadeira arte pública, sob os pés de quem anda pela cidade.
A calçada portuguesa depois de 1850 começara a sua expansão não apenas por Portugal e colónias, mas também a partir do inicio do
século XX pelo mundo (França, Brasil, África do Sul, EUA, Espanha, Itália...). Os calceteiros portugueses levam a sua arte, com uma forte carga identitária, a todos os cantos do mundo. O número de calceteiros não parou de aumentar, assim como o aperfeiçoamneto da arte. Em Lisboa, no ano de 1891 formou-se a Associação dos Calceteiros de Lisboa, dissolvida na década de cinquenta do século XX. Curiosamente foi nesta década e na seguinte, que muitos artistas e arquitectos desenhararam moldes para a "calçada artística portuguesa".
É dificil encontrar uma arte em Portugal com tão forte carga identitária, reconhecivel em todo o mundo, como referiu o reitor da Universidade de Lisboa, Prof. Luís Ferreira, no elogio que fez aos que a materializam, os mestres calceteiros (na foto). O problema, como foi também várias vezes repetido, é que a profissão é pouco apelativa para os jovens. A Escola de Calceteiros de Lisboa, criada 1991, foi um passo importante para a preservação da arte, mas claramente insuficiente. A profissão carecia de ser reconhecida, e de ser melhor remunerada. A criação da Associação da Calçada Portuguesa, a consagração do Dia Nacional do Calceteiro (2026), a classificação municipal de algumas calçadas, a candidatura à UNESCO como património imaterial (março de 2025), assim como a criação de um Centro Interpretativo-Museu em Alvalade, são passos importantes para o seu reconhecimento e valorização. 
O estudo sistemático dos arquivos tem revelado a autoria de miuitos dks moldes, na maioria dos casos foram obra de criadores de primeiro plano na arte em Portugal, como
António Pardal Monteiro, Maria Keil (Largo de Camões), Cottinelli Telmo (Belém), João Abel Manta ( Restauradores), Eduardo Nery (Praça do Município), entre muitos outros. 
A realização da EXPO98 foi aproveitada para o convite a diversos artistas para a criação de novos motivos, como Fernando Conduto, Pedro Calapez, Pedro Proença ou Rigo. Em 2015, Vhils (
Alexandre Farto), concebeu um interessante projecto de homenagem da Amália Rodrigues, no qual a calçada estende-se para além do passeios e sobe pela parede.


Não deixa de ser significativo, por último, a ausência de membros da actual Junta de Freguesia de Alvalade (PSD/CDS/IL) nesta cerimónia, na qual esteve presente o presidente da Assembleia Municipal de Lisboa (André Moz Caldas), vereadores da CML, presidentes de diversas juntas de freguesia, deputados da Assembleia da República, membros do governo. A sua ausência, neste e outros encontros relevantes sobre o espaço público, revelam a forma marginal com encaram este domínio, preocupados que estão em esbanjar recursos públicos nos "eventos" .
Continua...
|
|