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Foi Mais ou Menos Assim   

 
 
 

Faz este ano 40 anos que teve início o primeiro Curso de Estilismo Industrial do CIVEC. Representou na altura uma mudança profunda no modo como a formação profissional em moda era realizada em Portugal. Por um acaso, ou talvez não, estivemos directamente envolvidos neste e outros projectos na área, nos trepidantes anos oitenta. Uma antiga aluna recordou-me a data e deixou o repto: "conte lá, mais ou menos, como tudo começou".

CITEM

Fui tudo inesperado ou talvez não, como se verá. Uma empresa de publicidade luminosa, em 1982, chamou-me a colaborar na iluminação de um salão, na Associação dos Comerciantes de Lisboa, às Portas de Santo Antão, onde um Anselmo Balzola, pretendia proferir uma conferência sobre confeção. Residia havia poucos anos em Portugal onde organiza cursos de modelagem. No contacto que tivemos, e da longa conversa que prosseguiu no Hotel Tivoli, o assunto interessou-me particularmente. Poucos meses antes, em mais uma visita a Paris, tinha andado a explorar as novas tendências do design, incluindo na Alta Costura.

Abertura que ocorreu em Portugal depois do derrube da Ditadura (1974), o campo das artes estava em grande efervescencia. Eu, como muitos outros, andavamos obessivamente à procura de novas ideias. Na Filosofia (faculdade de Letras de Lisboa), mas também em locais, como a Galeria Quadrum (Alvalade), onde Ernesto de Sousa com as suas caóticas aulas ou a performance de Gina Pane, o que era dito e visto era absorvido como algo transcendente.

Na altura desta conversa, a minha casa em Alvalade, viu nascer duas revistas de filosofia - Filosofia Actual e Logos -, assim como ali foram planeadas várias iniciativas no domínio das artes, nas quais participaram, entre outros, João Queiróz (1957~2025), que procurou na pintura expressar a forma de olhar a natureza que o apaixonara na filosofia. Para não perder o contacto directo com os grandes mestres que lecionavam na Escola de Artes António Arroio, acumumulava cursos: Artes dos Tecidos, Imagem, Artes Gráficas e julgo que Artes do Fogo. Deixava sempre uma disciplina por fazer, pedia equivalências, e inscrevia-me num novo curso. Os conselhos técnicos e opiniões criticas destes mestres eram fundamentais para os projectos em que trabalhava e textos que escrevia. Não era caso único na escola. Este era aliás um dos segredos mais partilhados na escola, que servia de local de encontro e conversa de alunos e outros que por lá andavam com os mestres que faziam as coisas acontecerem. Este era o ambiente que vivia intensamente eu e outros amigos, sempre dispostos a abraçar um projecto novo.

Da conversa havida, sabe-se lá porquê, Anselmo e a Shirley (a sua companheira da altura), convidaram-me a colaborar na criação de um a escola de moda, o CITEM - Centro Internacional dos Tecnicos de Moda, a abrir em Lisboa (Rua do Salitre, 195-3ª.Dt.) e no Porto (Clube Fenianos). Aceitei o desafio, abandonei a publicidade gráfica e luminosa, e a concepção de stands na Feira Internacional de Lisboa. Deveria assegurar duas disciplinas curso, História da Moda e Tecnologia Textil. O material didáctico base vinha da escola Marangoni, e outro que teria que arranjar no país, Paris e Madrid. Na prática, tinha que fazer muitas outras coisas: escrever textos promocionais e outros mais prosaicos do CITEM, orientar e tomar a meu cargo, desde o stand na Portex (Dez.1982), a obras nas instalações em Lisboa, ou na adequação dos espaços no Porto. Foram meses de intenso trabalho, recolha e sistematização de informação.

As aulas arrancaram no Porto e Lisboa, em Janeiro de 1983. Não havia tempo a perder, era necessário recuperar o investimento feito. Para complicar a situação, Anselmo, sempre com novas ideias, resolvera criar nos Fenianos um resturante, o Rossini, cujo trabalho de promoção ficou a meu cargo. O leque de alunos era desafiante, nomeadamente em Lisboa, recordo-me de Eduarda Abondaza, Mário Matos Ribeiro, Iolanda ou a Paula Mercês. Em março estou de novo em Paris, agora com objectivos pessoais precisos: conhecer melhor o que se fazia no ensino da moda, incluindo os métodos pedagógicos, para além de recolher materiais, contactos com associações profissionais e patronais, tudo o que pudesse colmatar as lacunas por demais evidentes que existiam na escola. Como "coordenador pedagógico" e "professor" do CITEM, defendia que tinhamos que largar as áreas de formação e estabelecer uma ligação à industria. Como professor, trabalhava numa abordagem criativa à História da Moda, seguindo as práticas similares correntes em escolas de referência na Europa. Sem nada estar consolidado, o Anselmo promovia já novos cursos na área do vitrinismo, passagem de modelos, entre outros. As tensões internas aumentaram entre o reduzido corpo docente, a que se acrescentava os atrasos nos pagamentos. O ambiente no CITEM, reflectia de algum modo o que ocorria no país. Em 1982, o défice externo atingiu os 12,9% de toda a produção anual. Em 1983, o governo apelou à intervenção do FMI. As taxas de juro foram aumentadas, para travar o consumo e o investimento, foram vendidas reservas de ouro do Banco de Portugal, para encontrar meios financeiros com que o Estado pudesse cumprir os seus compromissos internacionais.Concluído o prazo inicialmente acordado, decidi afastar-me do CITEM, após concluir todas as trabalhos que coordenava, e terminar as disciplinas que leccionava. Fechei o ciclo do CITEM.

Industria

No princípio dos anos oitenta era fácil perceber que algo tinha que mudar na formação profissional na industria textil e de confecção. No total representavam cerca de 30% das nossas exportações e da mão-de-obra activa, um enorme peso na economia do país. A esmagadora maioria das empresas, limitava-se a fabricar modelos concebidos fora do país, destinados a serem comercializados em mercados que não dominavam. Havia, no entanto, a clara consciência política que era necessário iniciar a dificil transição do "trabalho a feitio" para a "produção própria" nas empresas, numa industria cuja competitividade assentava nos baixos salários. A entrada de Portugal para CEE (atual UE), prevista para Janeiro de 1986, acabaria a médio prazo por diminuir estas vantagens competitivas, levando ao encerramento de milhares de fábricas e fabriquetas. Cenário sobre a qual, como veremos, escrevi vários textos e proferi várias conferências.

Alguns jovens desde finais dos anos 70 haviam procurado no estrangeiro, sobretudo em Inglaterra (Central St. Martins), obter uma formação nesta área. No principio dos anos anos 80, criadores como Manuela Gonçalves, Helena Redondo, Zíugnio, Ana Salazar, José Carlos entre outros, deram rosto a este movimento, orientados para nichos de mercado. A grande industria e os consumidores passou ao lado desta movimento, que na altura agitava o Bairro Alto. Este movimento de renovação, ainda que tímido, foi acompanhado da realização de feiras e eventos de certa dimensão, como a Portex (1977, Porto), Filmoda /Intermoda (1983, Lisboa), Não raro, estes "salões de moda" serviam de montra para clientes estrangeiros avaliarem a qualidade do fabrico que poderiuam fazer no país a baixo custo, no contexto da CEE. 

No Porto, registavam-se algumas iniciativas muito positivas. A pioneira  GUDI, fundada por Augusta Dias  (1972), nos anos oitenta iniciou um processo longo de reconstrução, para acompanhar as novas as exigências da industria. Nesta cidade, em 1983  foram criados cursos de  moda na Academia de Artes e Oficios, no Colégio de Nª. Srª. do Perpétuo Socorro e na Cooperativa Arvore . Em Lisboa, no IADE (1984), Melo e Castro lançou os primeiros cursos superiores em design de moda, depois replicados na Faculdade de Arquitectura de Lisboa. A formação artística nestas escolas, estava quase sempre desligada da formação técnica e das exigências da industria, o que limitava bastante o alcance da formação que ministravam, e o seu impacto na transição para a almejada produção própria.

A realidade era complexa: Portugal estava longe de ser conhecido internacionalmente como um país de criadores, muito menos no domínio da  moda. Ana Salazar, em 1972, abriu junto à Praça de Alvalade em Lisboa, uma pequena loja de roupa - A Maçã -, para vender roupa que importava de Londres.  Não era caso único em Lisboa. Só  em 1978, devido a restrições nas importações no país, passou ter criações próprias, com a marca Harlow, e em 1981 se abalançou a ter uma marca com o próprio nome. Em 1985, abriu a sua primeira loja no estrangeiro (Paris), gerando grande entusiasmo interno quanto à internacionalização neste domínio do país. A imagem  externa do país, como criador de moda, continuou a  não existir. Fátima Lopes (1990), seguirá o mesmo percurso. Abre uma loja em Lisboa - Versos (1990)-, para vender  roupa  importada, lançou-se depois na produção própria, organizou desfiles de moda, e acabou a  abrir uma loja em Paris (1994). O impacto externo destes e outros exemplos,  era muito limitado, apesar dos esforço na sua promoção. Portugal era conhecido internacionalmente pela excelência no fabrico de texteis e vestuário, a baixo-custo, mas não pela produção de moda. A moda era e é, alimentada pelas escolhas de consumidores com gosto e poder de compra para adquirirem peças de roupa diferenciadoras. Ora, a esmagadora maioria da população portuguesa, na imprensa internacional, pelo seu precário nível  de vida, não entrava neste patamar. Não tinha poder de compra. Podia ter pequenos nichos de mercado, mas não um industria própria de moda. Teria que preparar e  percorrer um longo caminho.   

IEFP- CFPVS/CIVEC

O IEFP, criado em 1979, a partir da restruturação do antigo Fundo de Fomento de Mão-de-Obra (1932), depois de ser regulamentado em 1982, registou um rápido crescimento no número de trabalhadores e funções que lhe foram  atribuídas para fazer face à transformação que se esperava no país, na sequência do pedido de adesão à CEE (1977). Foram então criados muitos centro de formação para os mais diversos sectores de actividade, como a confecção, textil, calçado, ourivesaria, cerâmica, construção civil, pescas, alimentação, industria electrónica, reparação automóvel, metalurgia, fundição, tanoaria, etc. Era fácil perceber que não  havia nem formadores qualificados para semelhante oferta formativa, muito menos, estruturas de enquadramento metodológico, centros de documentação. O pioneirismo tinha que conviver com o improviso na qualificação ou reciclagem dos formandos nestes centros.        

Nos sectores dos texteis e da confecção foram criados, em 1981, dois centros de formação profissional, numa parceria entre o IEFP e associações de empresas do sector: o CITEX no Porto e o CFPVS- centro de Formação Profissional do Vestuário do Sul (1981, futuro CIVEC) em Lisboa. O CFPVS estava focado na industria de confecção, abrangia um área correspondente a 9 distritos: Leiria, Santarém, Castelo Branco, Portalegre, Évora, Beja Lisboa, Setubal e Faro, onde laboravam 930 empresas com 19.000 trabalhadores. As instalações da primeira sede, na Rua da Misericórdia, eram muito precárias, reduzidas a duas salas, pouco mais permitiam do que organizar cursos de costura industrial. Uma formação que devia ocorrer em ambiente laboral e não dele desligado.

O estilismo passou a incorporar as materias de outros cursos no "Centro", nomeadamente dos Técnicos de Confecção.

O CFPVS , sob a lideração da engª. Ester Gonçalves, projectava alargar a oferta formativa na área da confecção, após encontrar novas instalações. Recordo-me das conversas havidas que o Estilismo era uma das hipóteses, mas o que se fazia era pouco entusiasmante no país. Em meados de 1984, no regresso de mais uma viagem a França, a Ester Gonçalves contactou-me para pensarmos num possivel curso de estilismo. O "Centro" passara a ter novas instalações em Benfica, inauguradas a 18 de Julho, onde a breve trecho passou a funcionar três novos cursos: Modelismo, Técnicos de Confecção (coord. Sérgio Freire) e Técnicos de Manutenção (coord. Saul). Em 1985 abriram delegações na Covilhã e em Castelo Branco.

Esta foi primeira mundança na imagem do CFPVS, substituindo-o pela palavra "centro" e depois CIVEC.

Na área do Estilismo (Design de Moda), como dissemos,comparando o que observava em Portugal e o que se realizava em noutros países, a conclusão era óbvia: havia muito a fazer. Os cursos teriam que ser bem preparados, desde a imagem da própria "escola", articulação com a industria, definição dos perfis profissionais, formação dos próprios formadores, organização dos curriculos aos materiais didácticos disponiveis. A inserção dos formandos no mercado de trabalho, também não devia ser descurada. Não havia tradição em Portugal neste domínio, bastava atravessar a fronteira para constatar as enormes lacunas. Aceitei este novo desafio, depois de uma passagem que me desiludiu pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.

Para ajustar o que havia aprendido e o que projectava fazer. Comecei por organizar cursos de curta duração para profissionais do sector. Era a forma aferir (e avaliar) conhecimentos, métodos pedagógicos e recursos didácticos. Em janeiro de 1985, organizei o primeiro "Curso de Iniciação ao Estilismo" para modelistas. Um mês depois, face a muitas solicitações estou a ministrar outro na Feira Internacional de Lisboa, mais amplo e com novos recursos didácticos, para um leque de profissionais mais vasto. O terceiro teve início em Setembro, terminando no final de Novembro no mesmo ano. No CIVEC começamos a criar um pequeno centro de documentação, suporte indispensável para os curso que estavam a decorrer e eram projectados.

Estilismo Industrial.

Desde Setembro de 1985, na passei a coordenar o chamado "Sector dos Recursos", elaborando um plano para lançar um curso de estilismo industrial, avaliar disponiblidades financeiras, estabelecer o curriculum, reunir e adquirir recursos didácticos e selecionar possiveis formadores para as diferentes matérias.

O curso, segundo os parâmetros do IEFP, teria a duração de três anos, seguidos de um estágio profissional de seis meses. Entre os objectivos acordados, o curso para além de formar profissionais para a industria, deviam ter em conta outras saídas profissionais, por exemplo, no comércio (consultores de compras, de imagem) ou na comunicação (publicidade, criticos de moda ). Devia ainda permitir constituir uma futura bolsa de formadores nesta área, com elevado conhecimento no sector e na produção de moda.

O curriculo que elaborei e que foi aprovado pela direcção do CFPVS e depois concretizado, estava organizado de modo a possibilitar uma progressiva integração dos alunos nos diversos níveis artisticos e técnicos. No primeiro ano, um conjunto de disciplinas como Desenho de Moda, Técnicas de Representação Gráfica, Desenho Anatómico, Desenho Técnico, Modelismo, Organização de Empresas de Vestuário, História da Moda, Psicossociologia da Moda e perspectiva sobre a Evoluação da Industria de Vestuário, deviam possibilitar um primeiro contacto com as exigências do Estilismo Industrial. No segundo ano, abriam-se novas perspectivas, para além das disciplinas plurianuais, surgiam outras com novos focos: Metodologia de Preparação, Organização e Fabrico Industrial de Colecções, Marketing de Moda, Gestão da Qualidade, Moulage, Tecnologia Geral Textil, Tecnologia da Confecção, Exploração de Projectos. No Terceiro, ano, incidiam sobre a Promoção e Comercialização de Colecções, Apresentação Gráfica de Colecções, Promoção e comercialização de Produtos de Moda, Estudo e desenho de Acessórios, Realização de Protótipos, Selecção de Tecidos, Padronagem por Computador e Moda e Comunicação.

No âmbito da preparação do curso, entre 9 e 14 de Setembro de 1985, organizamos a vinda a Portugal de Paul Brauder, para ministrar no CFPUS (futuro CIVEC), um curso de "Colecções e Estilismo Industrial". Um assunto que entendia (na altura) de enorme relevância.

Decidimos lançar o curso em 1986, um ano que representou um ponto de viragem no país. Em janeiro foi a entrada na CEE. No comércio, como era esperado, começou a operar-se um verdadeira revolução: abriu o primeiro centro comercial de grandes dimensões (Colombo), expandiram-se as grandes superficies (Continente), que acabaram por levar à falência dezenas de milhares de pequenas lojas que constituiam o chamado "comércio tradicional". As grandes cadeias internacionais de vendas de todo todo o tipo de produtos e serviços, começaram a difundir-se pelo país. Era uma revolução (previsivel) a que estavamos muito atentos.

Durante Julho e a Agosto, começou a selecção dos 20 formandos, registo o nome de todos: Marina Neto (Lisboa, 1967), Betina Gonçalves (Lisboa, 1969), Tó Simões (Setúbal, 1965), Helena Calapez (Abrantes, 1963), Cecília Mateus Santos (Santarém, 1968), Anabela Delca (Barreiro, 1967), Helena Simões (Lisboa, 1960), Ana C. B. (Lisboa, 1961), Rui Diniz (Lisboa, 1964), Cristina Saraiva (Coimbra, 1964), Emíla Barata (Lisboa, 1961), João Galvão (Lisboa, 1967), Margarida Dias de Carvalho (Lisboa, 1963), Irene Paixão (Vends Novas, 1966), Graça Cunha (Moçambique, 1961), Graça Rodrigues (Barreiro, 1965), Adelaide Lemos Borges (Lisboa, 1964), Vera Lima (Angola, 1965), Cristina Pires (Lisboa, 1965). Era um grupo muito diversificado, com motivações e até objectivos distintos, mas com grande potencial para várias saídas profisionais. Fiquei agradavelmente satisfeito.

A equipa de formadores era muito abrangente, e variou bastante ao longo de três anos, incluia desde licenciados em várias áreas, a artistas e técnicos altamente qualificados no sector. Registo de memória, no secretariado e Centro de Documentação Manuela Abreu e Anabela Ferrão Covêlo, na modelagem Rosália Castanhinha, Elvira Baptista, Arlina Moreno, Fátima Figueiredo, Maria José, Floriana Cruz (moulage), e nas outras áreas João Mourão, Helena Subtil, Mª. José Oliveira (acessórios), Eduardo Neves, Novais Gonçalves, Helena Peralta ou Paulo Domingos (engenheiro textil), professor a Universidade da Beira Interior (Covilhã) que com a Universidade do Minho abrira um curso de engenharia nesta área, e no qual lecionei a disciplina de estilismo industrial. O grau de comprometimento com o projecto, com rarissimas excepções, foi sempre elevado.

Estratégia comunicacional e Formativa.

Dentro da estratégia que havia definido e fora aprovada pela directora do "Centro", estava a renovação da sua imagem. O seu valor, em particular para os cursos de estilismo não podia ser ignorado. O confuso nome e logo do CFPS, em 1986, deu origem ao CIVEC - Centro de Formação da Industria de Vestuário e Confecção, cuja concepção do logotipo foram envolvidos os 20 alunos. Paralelamente produzimos novos textos de apresentação e promoção, participei em programas da RTP, como o "Ponto de Encontro", fiz circular na comunicação social e nas publiccações do IEFP noticias sobre o CIVEC. Era um área que tinha bastante experiência. Para promoiver a escola no Norte, no Comércio do Porto, a 4 de Dezembro de 1986, saia uma longa reportagem de Fernando Duque, sobre as mudanças que o Estilismo Industrial do CIVEC estava a provocar no sul.

Desde o inicio do curso todos os aluno, sem excepção, começaram a participar em diversas eventos na efervescente "Moda em Portugal". Era essencial desenvolver o espírito de iniciativa, a criatividade em difrentes situações, em futuros profissionais num sector assente na própria mudança de hábitos, costumes e mentalidades. Neste ano, recordo-me que dois antigos alunos do CITEM, organizaram as "Manobras de Maio" (1986) que estiveram na génese também da Moda Lisboa (1991).

"O Primeiro Rinoceronte que a Europa Viu". Foi desta forma o CIVEC se apresentou pela primeira vez na Intermoda, associando a moda à cultura. Numa folha de apresentação, sobre o animal que D. Manuel I recebera em 1513, e que percorreu as ruas de Lisboa, Albrecht Durer, desenhou para a posteridade um animal que nunca viu: "Veste-o de grossas placas, onde não faltam elementos da moda alemã da época: as linhas quadrangulares do vestuário masculino, as golas e punhos e tantos outros pormenores. A moda incorporava o exótico."

Em 1987, esteve movimento da "Moda em Portugal" adquiriu uma nova dimensão, com a presença dos alunos do CIVEC em vários eventos: Forum Moda na Intermoda, Gala do Cinema da Figueira da Foz, Exposição Crin`87 no Museu do Traje, 2º. Desfile Manobras de Maio, etc. O CIVEC passou a ter um stand próprio da Intermoda, concebido pelos alunos. Participação regular nos concursos de moda no país: Concurso Nacional de formação Profissional, na área do Estilismo (Betina, 2º. lugar, Delca, 3º. lugar), Concurso de Novos Estilistas/intermoda (Tó Simões, 2º. prémio de Design de Moda), Portex-prémio de Design de Moda, vários finalistas neste ano. Os seus alunos passararm a ser convidados para desenharem modelos, catálogos, escreverem artigos, até darem aulas sobre matérias que estavam a aprender no CIVEC. Apesar nos insistentes convites, o CIVEC nunca pode ter um stand próprio na Portex, dadas as guerras existentes, simplificando, entre a APIV (industriais de Lisboa) e a ANIVEC (industriais do Porto).

Performace nas ruas da Figueira da Foz, antes do desfile no casino da cidade. Alguns alunos do CIVEC, como já me ocorrera no CITEM tinham alguma experência no Teatro, manifestando inclusive a intenção de virem a dedicarem-se à criação de figurinos.

Neste ano de 1987, a moda estava na moda. Muitos eram os que tinham a convicção que havia que apostar nos jovens criadores para uma mudança efectiva na industria de vestuário. O próprio Museu do Trajo (inaugurado em 1977) mostrou-se particularmente ativo nesta promoção. O ICEP, de modo exaustivo passou a promover a presença de criadores e empresas no estrangeiro em certames internacionais.

O ano era promissor, apesar dos aproveitamentos políticos que na altura enfrentei. Era um periodo de renhidas disputas eleitorais. Em 1986 foram as presidenciais, em 1987 as legislativas (julho). O prestígio alcançado pelo curso, acabou por gerar a primeira crise. Uma das forças políticas em ascensão, acabou por fragilizar a Direcção do "Centro", ao fazer-lhe um ultimato: O CIVEC tinha que fazer uma passagem de modelos, numa "exclusiva" reunião partidária, não importava os custos, caso contrário havia consequências. Era a linguagem política muito frequente ao tempo. As minhas exigências, como responsável pela concretização do evento, foi que os alunos só participariam na "Passarelle" (Av.O.M.T, 8 b) se quisessem, mas ficaria no anónimato a "escola" e o nome de cada um. Um conhecido actor no tempo (Júlio César), comentou com alguma graça o conjunto de peças que desfilou, feitas de plástico preto e milhares de alfinetes. A Direcção do CIVEC resistiu, mas por pouco.

Chegados a 1988 tinhamos já dado um salto gigantesco, em termos de visibilidade pública e nas capacidades demonstradas pela maioria dos alunos. Multiplicavam-se os convites e as participações com sucesso em vários eventos: "Hábitos do Forum" no Forum Picoas, passagens de modelos no Museu do Trajo, Performance do CIVEC na Intermoda, etc. Nos prémios alcançados, destaque especial para Tó Simões, 1º. primeiro na Portex e 1º. prémio na Intermoda, em Design de Moda. Os alunos participavam, a título individual, mas com o apoio do CIVEC na criação de colecções, imagens de empresas, etc. Neste leque de experiências, revelavam-se algumas "vocações".

Para alargar a bagagem cultural dos alunos e vivenciarem outras realidade, entre 24 e 28 de Fevereiro de 1988 andamos por Madrid, desfrutando de tudo um pouco.

Não era fácil encontrar formadores de elevada competências para algumas disciplinas. Para colmatar uma destas situações, vi-me a tirar uma útil especialização em engenharia de qualidade, a primeira que foi promovida pelo Instituto de Soldadura e Qualidade em Portugal.

Estava em curso uma profunda revolução tecnológica na industria de confecção a nível mundial, em todas as áreas desde a concepção, produção ao pós-venda. A Comunidade Europeia incentivava e apoiava os Estados nestas mudanças. O CIVEC apetrechou-se com novos equipamentos, nomeadamente no planeamento do corte. Por minha iniciativa participou na rede Europeia Eurotecnet, com o projecto: Sentitex. Um estudo sistemático do impacto das Novas Tecnologias na Industria de Confecção no país, que seria acompanhado de acções de sensibilização das empresas para o que era previsivel (prospectiva). Uma aluna Ana C. B. participou comigo nos contactos internacionais e na redação de estudos, cujas conclusões foram apresentadas em vários foruns, como a um conferência na Portex, e publicações de artigos em jornais e revistas, como o Expresso (encarte) ou a revista Emprego e Formação do IEFP, entre outras. No quadro deste projecto, ainda em Setembro de 1989, foi convidado a participar em Paris, no Programe Européen d`Echange et de Développement pour la formation professionnelle et de Technologies Nouvelles (Eurotecnet). Eram participações que procuravam inserir o CIVEC numa rede de contactos internacionais, prescindiveis para acompanhar um sector em mutação, onde era expectável um forte redução do emprego. Em 1960, recorde-s, estes sectores já eram responsável por 28% do emprego e cerca de 30,5% das exportações totais do país (efeito EFTA). Devido em parte aos baixos salários, em 1980, continuava com valores elevado, 27,7% e 28% respectivamente. Sem uma forte aposta na sua modernização, nomeadamente para fazer face previsivel deslocalização da produção europeia para países asiáticos, onde a mão-de-obra era muito mais barata, anunciava-se a redução brutal destes indicadores a médio prazo (Carlos Fontes, "Texteis e Vestuário: sectores em mutação, Emprego e Formação, maio de 1990). A manutenção dos baixos salários susteve a crise, mas não a podia evitar. Em 2025 estes sectores representam cerca de 7,8% das exportações nacionais, 2,7 % do emprego (120 mil trabalhadores), aproximadamente 70% são mulheres, 85% das empresas estão concentradas no Norte.

No Forum Picoas (Outubro de 1989), já como assessor do Centro Nacional de Formação de Formadores, apresentei os resultados da minha investigação sobre as mulheres em Portugal na Industria de Vestuário, no ambito da Comunidade Europeia (Rede Comunitária Iris), cujo texto conheceu grande larga difusão após a sua publicação na Revista da Industria Textil,(ano X, nº3, março de 1990).

A luta pelo controlo do CIVEC provocou o afastamento da directora, num polémico e desgastante processo. Não se afastou do sector, associou-se com Maria Celeste Lé de Matos, na constituição da escola profissional Magestil (Outubro de 1989), inicialmente centrada na formação de técnicos para a industria de Confecção. Levou consigo importantes elementos do CIVEC, e depois alunos do curso de Estilismo (1986/1989). O curso de design de moda, criado em 1990, sob a coordenação de Adelaide Borges, formada no CIVEC, acabou por tornar-se uma importante referência nesta área com créditos nacionais e internacionais. A partir de 1995, passou a dipor de acolhedoras instalações na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Alvalade. Em 2019 deu mais um passo nesta área, com a criação da Escola de Moda de Lisboa, secção da Magestil.

Primeiro número da revista Vestir.

Apesar da degradada situação interna da direcção do CIVEC, em Outubro de 1988, tendo como director interino , Pedro Vieira, avançamos para a publicação da revista - Vestir - , graças ao excelente trabalho de Marcial Alves. Neste primeiro número publiquei um texto sobre "O Impacto das novas Tecnologias na Industria de Vestuário, e os resultados previsiveis com o "trabalho a feito" , assente nos baixos salários. Alunas e professores do curso de estilismo, passaram a publicar na revista artigos com regularidade. Neste primeiro número fizeram-no: Ana Borges ( A Medida do pezinho), Cecília Mateus Santos (Agarrar o Futuro). Como formadores: Vitor Novais Gonçalves (Porquê o "Marketing"), João Paulo Domingos (Manutenção e Promoção da qualidade na industria de confecções). Isabel Marcos (Designios da Moda), aluna de um curso reciclagem em estilismos industrial. A revista, na altura de grande impacto no sector, era um claro meio de promoção do CIVEC e da perspectivação da industria em Portugal. Paralelamente, continuava a escrever para outras publicações, em especial as revistas do IEFP - Dirigir e Formação e Emprego e outras publicações da Industria, sobre temas da industria de confecção.

Mudanças e Novas Iniciativas.

O forte impacto criado pelo CIVEC, despertou num contexto poltiítico de grande competição os habituais movimentos para o controlo e aproveitamento pessoal e partidário das instituições. Os empresários que se faziam representar no conselho de administração do CIVEC, desde o inicio que procuravam colocar ao serviço das suas empresas, ou nas organizações a que estavam ligados (AIP/FIL/Intermoda), técnicos, formandos e recursos do centro, num claro abuso que perturbava a própria formação.

O Gabinete de Tendências do CIVEC, era um dos projectos que tinha lançado em 1987, contando desde inicio com a colaboração inicial de Greta Statter entre outras pessoas. Em Janeiro de 1988, numa reunião na FIL, com os empresários do conselho de administração do CIVEC, e Vitor Nobre (responsável pela Intermoda), dizem-me que o mesmo seria substituido pelo Gabinete da Intermoda, com alunos e professores do CIVEC e por ele financiado. Foi fácil seduzir os jovens do primeiro curso (5) e de outro curso de "reciclagem" (mais curto) que entretanto organizara, era natural, os alunos queriam agarrar oportunidades de trabalho. Menos compreensivel (?) foi o comportamento de um professor, neste esquema. Águas passadas. O desvio de material do CIVEC foi todavia imperdoável. A situação na prática reflectia o que acontecia no país, nomeadamente no saque do dinheiro proveniente do Fundo Social Europeu, que terminou, como é sabido, em 1991, com a demissão do presidente do IEFP, acusado de corrupção. O dito Gabinete da Intermoda acabou, quando secou o dinheiro. A Greta Statter, representante da lPromostyl em Portugal, fundou ,em 1990, com Maria da Assunção Avillez e Paulo Valente, um Gabinete de Imprensa de Moda do país. A própria APIV, acabou mais tarde absorvida pela ANIVEC. O CITEX e o CIVEC, deram origem à MODATEX, mas issso é outra história.

No derradeiro ano de 1989, antes do estágio dos alunos do curso de 1986/1989 , o ambiente interno no CIVEC não era o melhor. Apesar disso, a linha de rumo que havia acordado, em 1985, prosseguia com exitos e alguns fracassos.

Não podendo dizer que não ao mestre alfaiate Armindo Bártolo, tentei promover um curso de alfaiataria no CIVEC. Estudei a profissão, definimos o perfil profissional, elaboramos um curriculo exigente, reclamado pelo alfaites. Superamos as exigências colocadas pelo IEFP, quanto ao ao género dos formandos, mas o curso não teve a procura de género (rapazes) desejada. Dez anos depois, a revista Vestir (nº40, Julho-Setembro 1998) publicou um dos textos que escrevi para promover este projecto que ficou pelo caminho.

"Precisamos de si", não pude também dizer que não à responsável pelo " Programa de Conservação do Património Cultural" (CPC), Margarida Moura, do IEFP. O método de trabalho que desenvolvera no CIVEC, fui chamado a replicá-lo em acções de formação dirigidas a directores de centros de emprego, coordenadores regionais do CPC, formadores e alunos dos cursos de artesanato e oficios e tradicionais por todo o país. Não tiveram conta as acções que realizei (acções de formação, encontros, conferências, textos que escrevi). Ao contrário da alfaitaria, os resultados obtidos superaram as minhas melhores expectativas. Ao longo de vários anos, aprendia imenso com largas centenas de artesãos e profissionais de oficios tradicionais.

A inspiração em temas "portugueses" na moda estavam muito presentes nos anos oitenta: Os alunos do CIVEC propunham em cada stand na Intermoda, a sua reinvenção, partindo da própria concepção do stand, incluiam vestuário para a recepção, coreografias, música e textos inéditos sobre o tema. No salão da Intermoda Primavera-Verão 89, abordaram os "Mistérios Alquímicos", a ficha técnica revela a participação de alunos do primeiro curso e de outros que tinham sido iniciados, para além de estagiários vindos de empresas do sector. Eram um ponto de encontro de criadores em formação.

Guardo uma boa recordação, dos jovens filhos de empresários de Portugal e de organizações do Brasil, como a SENAI que vieram realizar estágios prolongados sob a minha direcção.

Duas notas sobre os percursos dos alunos no final do curso. A maioria tinha ideias definidas sobre o que pretendia fazer, com caminho já trilhado.

Um grupo de dez alunos, desde 1987 alimentava a ideia de constituir uma cooperativa, a VERTICE. Foram dando corpo à ideia, realizaram várias iniciativas, em 1988, por exemplo, duas passagens de modelos, uma na Queima das Fitas em Coimbra e outra no Museu do Trajo em Lisboa. Pareceu-me na altura demasiado precipitado, mas arriscaram e prosseguiram como projecto. O CIVEC deu todo o apoio solicitado.

Tó Simões, outro exemplo, resolveu com grande ousadia seguir uma percurso pessoal. Ainda durante o curso, apresentou no Hotel Avenida Palace, com o patrocínio do CIVEC, a sua proposta para o inverno de 88/89. No ano, anterior, recordo-me que já a convite do ICEP participou na acção "Moda Portugal" nos certames Future Fashions Scandinavia (Copenhagen) e no Salão de Moda Masculina em Colónia. No curso, não foi o único a ser convidado, mas o que perspectivava de forma consistente uma ligação internacional.

No dia 20 de Junho de 1989, pelas 21h00, na Estufa Fria, realizou-se o desfile de encerramento do primeiro curso de estilismo industrial do CIVEC. Apesar de todos os percalços de última hora, foi um êxito. Nenhum pormenor foi descurado. Após ter assegurado o estágio de todos os alunos, assim como as condições para o prosseguimento de outros cursos e acções que havia promovido, era tempo de colocar um ponto final na minha passagem pelo CIVEC. Aprendi muito com quem aprendia, mas também com quem ensinava e colaborava neste processo dito de ensino-aprendizagem. Prefiro charmar-lhe de partilha.

Carlos Fontes, Outubro de 2026