Cantares dos Búzios

Nunca como em Veneza
Adoro a nossa pobreza
Portuguesa;
As nossas casas caiadas,
As nossas praias salgadas,
Os burricos berberes,
E na Batalha de pedras douradas
A saia pela cabeça das mulheres.

Ó Veneza oriental,
Marítimo tesouro
De púrpura, de mármores e de ouro:
- Em Portugal
Rico só o céu que lá nos cobre.

Portugal teve o Mundo - e ficou pobre.

Afonso Lopes Vieira

Romance

 

Por noite velha, truz, truz,

Bateram à minha porta.

De onde vens, ó minha alma?

- Venho morta, quase morta.
Já eu a mal conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.
Mandei-lhe fazer a ceia
Do melhor manjar que havia.
- Donde vens, ó minha amada,
Que já mal te conhecia?
Mas a minha alma, calada,
Olhava e não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!
Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha:
«Por cima damasco roxo, "

Por baixo cambraia fina».
- Dorme, dorme, ó minha alma,

Dorme e, para te embalar,

A boca me está cantando,
Com vontade de chorar.

Afonso Lopes Vieira

Jornal da Praceta