Jornal da Praceta

O jornal de Alvalade

Fundado em 2001 

 

   

 

"O Automóvel na Cidade

Eu também sou dos que deixam o automóvel à porta de casa, esperando a hora duma deslocação necessária, sem os apertos do transporte colectivos. Sou um homem do século das facilidades mecânicas, da vida em ritmo acelerado, das mil e uma ocupações quase simultâneas em locais distantes e da permanente falta de tempo nestes dias curtíssimos de agora, que só têm vinte e quatro horas. Sou mais um dos centauros da nova espécie com cabeça e tronco de homem, garupa e rodas de automóvel...

Mas a condição de automobilista, que me permite exercer uma actividade profissional ao ritmo da época e algumas deslocações agradáveis ainda não me impediu de observar, de raciocinar e de acumular por essas vias sérias apreensões quanto ao futuro da cidade em que vivo.

Receio muito que o modo como estão sendo encarados os problema do trânsito e do estacionamento de automóveis em Lisboa (ou como não estão sendo encarados, se preferirem) nos reserve dolorosas surpresas. Entre outras, a de nos encontrarmos, num futuro relativamente próximo, num cidade onde ainda se conseguirá circular, mas onde as funções urbanas tradicionais - habitar, repousar, produzir, conviver, recrear o corpo e espírito. etc. - tenham sido excessivamente sacrificadas à imprevidência, à descoordenação e a uma visão estreita e parcial dos problemas do trânsito.

Entendamo-nos ainda:

Não enfileiro entre os que trazem na manga, prontas para impressiona o ouvinte ou o leitor, soluções salvadoras. Nem mesmo acredito que problemas desta natureza tenham soluções salvadoras - cabais, - completas definitivas. Tão complexo é o encadeado de relações de causa-efeito, que os êxitos do momento podem abrir os caminhos a novos problemas e dificuldades.

Mas creio que se consegue, com inteligência, estudo, previsão e coordenação de esforços, um certo domínio sobre as circunstâncias que nos compelem, ou afligem; e se pode, até, tirar delas algum partido. Creio ainda que um importante passo para que os problemas se resolvam da melhor maneira consiste em equacioná-los devidamente. Objectivo que exige -e aqui toco em algo de essencial - não apenas conhecimentos técnicos especializados e actualizados, mas uma análise dinâmica dos problemas em causa, sem os desintegrar das circunstâncias em que se processam e evoluem bem como das suas interligações com variados outros problemas. No caso de que nos ocupamos, essa verdadezinha elementar reveste-se duma importância excepcional. Porque o automóvel não criou na Cidade apenas problemas de trânsito, mas um encadeado de situações e dificuldades que requerem solução conjunta com eles. ", F. Keil do Amaral, in Lisboa, uma Cidade em Transformação.

F. Caetano Keil do Amaral, nasceu em Lisboa a 28 de Abril de 1910 e aqui faleceu em 19 de Fevereiro de 1975. Formou-se em arquitectura nas Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Trabalhou para a CML onde foi responsável por diversos projectos para parques e jardins, como o Monsanto, Parque Eduardo VII e a renovação do Jardim do Campo Grande (obras dos anos 40 do século XX); No jardim do Campo Grande foi ainda o autor das piscinas (1960).

 
   

Lisboa: automóveis-10 Habitantes - 0

A política de transportes em Lisboa tem um vencedor antecipadamente conhecido: os automóveis. Todas as regras do jogo foram viciadas para que assim acontecesse. Os automóveis irão ganhar aos habitantes de Lisboa porque: 

1. Todos os veículos motorizados, sejam eles automóveis, camiões, carrinhas, motas  têm  direito a ocupar todos os espaços públicos (ruas, praças, passeios, jardins, passadeiras para peões, etc); Apesar da legislação existente, em termos práticos, não há qualquer restrição real a esta ocupação. Diariamente os automóveis expulsam os habitantes de Lisboa dos passeios que aparentemente lhes estavam reservados.

 2. Os automóveis podem circular a qualquer velocidade pela cidade. Os estudos estatísticos são conclusivos a este respeito. Muitas artérias da cidade como a Av. de Roma, Av. Gago Coutinho, Campo Grande, 2ª. Circular, etc, estão transformados em verdadeiras pistas para corridas de automóveis;

3. A poluição atmosférica da cidade atinge já proporções tais que ameaçam a saúde dos habitantes, fazendo disparar o número de doentes por problemas respiratórios e cardiovasculares. 

4. Em muitas ruas a poluição sonora tornou simplesmente impossível aí residir. Não há vidros duplos que resistam. A única alternativa que resta aos moradores é mudar de casa.

5. A construção selvática de parques subterrâneos não poupa nada. Se não fosse a oposição dos moradores muitos mais jardins de Lisboa já teriam desaparecido. Por vezes o impensável acontece: a destruição de um bairro islâmico na Praça da Figueira para dar lugar a um parque de estacionamento.

6.Multiplicam-se desde há décadas os licenciamento camarários que não levam em conta os problemas do estacionamento e circulação do tráfego, contribuindo desta forma para aumentar a desordem do trânsito, e deteriorando a qualidade de vida dos habitantes. Após a detecção destes casos, não se observa qualquer  intenção de apurar responsabilidades e afastar funcionários incompetentes ou corruptos. Tudo é simplesmente silenciado. A impunidade é total.

7. Não existe uma fiscalização minimamente eficaz para evitar que garagens de prédios de habitação sejam transformadas em armazéns, escritórios, etc. Tudo se passa no "reino do faz de conta".

8.Não existe uma regulamentação digna desse nome para as cargas e descargas na cidade. Estas podem ser feitas na prática, a qualquer hora e lugar.

9.A PSP e a Polícia Municipal demitiram-se por completo de grande parte das suas funções em matéria de transito. O estacionamento e por vezes a circulação foi confiado a marginais. A PSP diz-se sem efectivos e "desmoralizada" (?). Os altos dirigentes camarários encolhem os ombros e afirmam que nada podem fazer, porque se trata de um "problema social". Este "trabalho" permite aos marginais obter dinheiro para comprarem droga sem andarem a roubar. Equacionado o problema desta forma não há solução possível. 

10. Não existem medidas restritivas para a entrada de automóveis na cidade, pelo contrário, tudo é feito para estimular a sua entrada e livre circula. No pensamento do projectistas camarários está o modelo de uma cidade feita à imagem e semelhança de um enorme parque de estacionamento, rasgado por amplas artérias interiores para a circulação de automóveis. A orientação neste espaço é feira por grandes centros comerciais, escritórios e torres-dormitórios. 

CF, 2004

 
   
  
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