Envelhecimento da
população e a vida dos bairros
O envelhecimento da
população está a afectar não apenas o país, mas também a mudar
profundamente a vida nos bairros lisboetas. Alvalade e o Campo Grande espelham
estas mudanças.
Percorrendo as ruas de Alvalade ou do Campo Grande é fácil
descobrir atrás de uma qualquer janela um vulto cujo olhar se fixa sobre o que
se passa na rua. Este é o principal entretém para muitos dos idosos da cidade
de Lisboa.O envelhecimento da população portuguesa reflecte-se a
todos os níveis da sociedade, e em particular na vida dos bairros, conduzindo
ao encerramento de escolas e à extinção de muitos dos pólos da vida
citadina, como os tradicionais clubes recreativos e desportivos.
As mudanças são todavia mais profundas e carecem de um
estudo mais amplo que conduza a adopção de medidas
concretas.
O envelhecimento da população nos bairros é
inevitavelmente acompanhado por uma diminuição do poder de compra.
Facto que se repercute negativamente em áreas como o comércio e a
restauração. A tendência é para o aparecimento de lojas de artigos de baixo
custo e fraca qualidade.
Os investimentos na melhoria ou recuperação das
habitações são igualmente afectados. A tendência é para manter tudo o que
está e só investir em melhorias em situações excepcionais. O que se traduz
num estado de completa decadência de muitas das habitações e áreas
circundantes.
As saídas à rua tornam-se mais raras, o que agrava a
situação do comércio e serviços existentes no bairro, e também contribuiu
para aumentar a desertificação das ruas e o sentimento geral de
insegurança.
Outra das situações mais graves, diz respeito à
diminuição da intervenção cívica. Isolados nas suas habitações, a
população idosa tende a resignar-se às situações com que se depara mesmo
que as ache injustas. Falta-lhe energia para defender as suas razões e
direitos. Desta forma torna-se presa fácil de todo o tipo de vigaristas,
falsários, assim como de serviços públicos dirigidos por incompetentes ou
corruptos. Não é fácil também neste contexto, organizar ou sequer
mobilizar os moradores destes bairros para a defesa de causas comuns. As pessoas
que os constituem tendem a assumir atitudes pessimistas e a
manifestarem-se avessas a enfrentarem situações incertas como são
todas as lutas sociais.
Agravantes
Dir-se-á que estas situações são
o reflexo de uma velhice mal "preparada". Na velhice tende a fazer-se aquilo que
sempre se fez , sem as actividades laborais. Quem nunca frequentou um café ou
nunca assistiu a um espectáculo só em condições muito excepcionais o fará após a
reforma. A tendência é para ficar em casa a lamentar-se de não ter nada para
fazer, até ao momento de nem sequer esta questão se colocar.
Os espaços públicos em Lisboa
fazem as pessoas idosas sentirem-se ainda mais velhas.
Os cafés expulsam-nas quando
chega a hora dos almoços.
Os passeios estão atulhados de
carros.
Os pequenos jardins de bairro
estão na sua maioria abandonados ou vandalizados.
Os espaços públicos deixaram de
ser locais propícios para passear e muito menos para conviver.
Muitos poucos espaços
alternativos têm sido criados para os mais idosos, nomeadamente para lhes dar
uma ocupação criativa.
Tudo se passa como se os idosos
não existissem, a não ser nas épocas eleitorais para os candidatos a uma
qualquer gamela na CML ou na Junta. Dir-se-á, mais uma vez, estamos perante uma
cultura que tende a associar os idosos à inutilidade. A simples constatação não
resolve o problema. É preciso mudar esta situação, para que Lisboa volte a
ser uma cidade mais viva.
Carlos Fontes |