Jornal da Praceta


Informação sobre a freguesia de Alvalade

(Alvalade, Campo Grande e São João de Brito )

Poluição

 

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Antologia das Lixeiras de Lisboa

Carlos Fontes

As lixeiras e a falta de higiene em Lisboa são mundialmente conhecidas.  Desde o século XVI que muitos estrangeiros que nos visitaram ficaram impressionados com a porcaria nas ruas da cidade. A CML não podia, como é óbvio, ignorar esta tradição alfacinha, é por isso que contra todos os protestos dos moradores persiste em manter o lixo que se acumula em Alvalade.

A tradição em Lisboa continua a ser aquilo que era. Desta forma se alimenta também ratos, ratazanas e todo o tipo de bicharada. Em toda a Europa não existe uma capital mais ecológica.

 

Ratos de Qualidade

"Uma viagem em Portugal ou em Espanha equivale a uma campanha militar: falta de víveres, emboscadas, perigos, incomodidades, acampamentos. Encontra-se de tudo menos a glória.

Acreditava que os Portugueses, só que fosse pela inimizade que sentem pelos Espanhóis e pelo prazer de estar em contradição com os seus vizinhos, deviam ser mais asseados, mais requintados e estar mais comodamente instalados do que eles. Ai de mim! Eles são em tudo os rivais dos Espanhóis.

Para vos dar uma ideia das estalagens de Portugal, dir-vos-ei que a noite passada, na Moita, os ratos devoraram uma grande galinha da Índia que eu tinha levado para o meu quarto, e da qual nem sequer deixaram os ossos. Os nossos lobos são menos vorazes que os ratos das estalagens deste País.".

José Pecchio, carta datada de 9 de Fevereiro de 1822, publicada em Cartas de Lisboa-1822. Livros Horizonte. Lisboa.1990  

  Quando os cães estavam ao serviço da CML


"Jorge Landmann, um oficial inglês que esteve
em Portugal durante as invasões francesas, conta, em Historical, military and pictures que observations in Portugal, publicada em Londres, em 1821, que a convenção de Sintra salvou a vida a muitos cães! E explica:

Junot, para terminar com a perigosa e incomodativa situação dos cães andarem de noite, pelas ruas de Lisboa, lutando, ladrando e uivando, ordenou a sua matança. Muitos foram mortos e mais seriam se o general francês, após a assinatura daquele tratado, não se tivesse retirado do país.

Muitos portugueses - acrescenta Landmann - consideraram aquela ordem não só um acto cruel mas também prejudicial. Mortos os cães, desapareciam os funcionários da limpeza urbana. Para sobreviverem, aqueles animais semi-selvagens devoravam os detritos e imundícies que empestavam as ruas da capital.", nota de rodapé de Manuela Simões, in Cartas de Lisboa-1822, de José Pecchio. Livros Horizonte. Lisboa. pp. 36-37.
 

Um historiador insuspeito, Albino Lapa, descreve-nos desta forma Lisboa em fins do século XVIII: "As casas estão sujas; os piolhos, os percevejos e insectos de toda a espécie tornam a estadia insuportável (para viajante).As ruas estão cobertas de imundices, sem quaisquer luzes, a não ser as que iluminam algumas Virgens; infestadas de cães, que passam toda a noite a ladrar; só Lisboa tem mais de 80.000 cães nas ruas; estão inundadas de ladrões, de dejectos de bacios de noite, de cães e de polícias", in História da Polícia de Lisboa, vol.II.pp.23-24.
 

 
  Lá Vai...


Existe uma longa tradição lisboeta de lançar na rua todas as imundícies, o hábito não é de hoje. Esta prática está amplamente documentada e foi sempre um dos aspectos que mais chocam os estrangeiros que nos visitam. 

"De dia para dia Lisboa ganha em beleza e possui habitações de agradável aspecto. Não obstante, Lisboa nunca será uma bela cidade enquanto não estiver limpa de imundícies e dotada de lanternas para iluminação das ruas durante a noite. As casas não possuem latrinas e são as pretas que transportam das habitações os potes dos despejos. Porém quando o tempo ameaça aguaceiros, despejam-se os dejectos da janela à rua, o que torna as ruas de Lisboa pouco transitáveis durante a noite, porque além do nojo de receber um tal baptismo ainda por cima se corre o perigo de ser morto pelos potes que muitas vezes baldeiam à rua com o seu conteúdo.

Um amigo meu, tendo estado retido no palácio real até muito tarde, ao sair, debaixo de chuva, foi presenteado com este mimo pelas damas da corte que muito embora sejam de uma beleza perfeita aquilo que delas lhe deram não cheirava mais a almíscar que o aroma com que o granadeiro das guardas-francesas perfumava o velho Delfim. O meu pobre amigo, ao tirar um lenço da algibeira da casaca onde distraidamente havia guardado a bolsa, deixou-a cair sem dar por isso e assim perdeu quarenta moedas de ouro e um belo diamante que nela guardava. Levará muito tempo para esquecer o presente das damas de honor da rainha de Portugal. Tendo narrado a sua aventura ao Secretário de Estado, este ministro teve a bondade de lhe conceder uma indemnização, mas o diamante a bolsa nunca mais as viu."

Charles Fréderic de Merveilleux, Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723-1726), in O Portugal de D. João V visto por três forasteiros (1989). Lisboa. Biblioteca Nacional. Série Portugal e os Estrangeiros.
 

 
 

As Históricas Lixeiras do Campo Grande

Há hábitos que resistem ao tempo, atravessam gerações e parecem ser imunes aos contextos históricos. Um dos nossos colaboradores descobriu, numa das bibliotecas do bairro, um destes casos singulares. 

O olissipógrafo Ralph Delgado, publicou, em 1969, uma pequena mas muito útil história sobre o Concelho dos Olivais. Embora só tenha sido criado a 11 de Setembro de 1852, a sua origem remonta a 6 de Maio de 1367, quando o arcebispo de Lisboa, D. João Anes, criou a Freguesia dos Olivais, cuja área compreendia todo o Termo de Lisboa. Apesar das muitas desanexações que sofreu ao longo dos séculos, ainda no século XVIII, a sua área era enorme nos arredores de Lisboa. Quando foi criado o Concelho do Olivais integrava 22 freguesias, entre as quais se contava justamente a dos Santos Reis Magos (a actual Freguesia do Campo Grande). Recorde-se que entre 1855 e 1858, os Paços do Concelho funcionaram no antigo Palácio  do Marquês de Valença ao fundo do Campo  Grande. Quando foi extinto, em 1885, uma parte da sua área foi integrada no Concelho de Lisboa, outra no então criado Concelho de Loures, e outra ainda no Concelho de Mafra. 

Ralph Delgado estudou como ninguém até à altura, a documentação que subsiste do citado concelho, e procurou identificar os principais problemas com que a sua vereação se debatia nas freguesias. É significativo assinalar que entre os poucos casos que particulariza, dois deles se referem justamente à freguesia do Campo Grande.

O primeiro é o das crónicas inundações que aqui ocorriam quando começava a época das chuvas: ficava tudo alagado. Esta Câmara mandou proceder à construção de um sistema de canalizações, a fim de evitar a repetição destas situações. O que infelizmente não se veio a verificar. 

O segundo, diz respeito às severas medidas que a Câmara se viu obrigada a tomar para "proibir os despejos" que tornavam o Campo Grande "numa lixeira insalubre" (sic). Havia porcaria por todos os lados.

Ralph Delgado (1969), A Antiga Freguesia dos Olivais. Lisboa. CML

 
   
   





 

 

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Tenha Vergonha. Não Suje as Ruas*